O espaço entre duas coisas é quase sempre tratado como desperdício. Latência, atrito, tempo morto, gordura a cortar. Quando um negócio quer melhorar, é a primeira coisa que ele elimina.
E é ali que tudo acontece.
Não sou neurocientista, teóloga, nem física. Pesquiso e pinço de campos que não são meus, costuro com o que é meu, e o que sai é interpretação, não veredito. As ciências mudam de ideia, e ainda bem. Feito o aviso, o recorte que me interessa.
Um cérebro não pensa nos neurônios. Pensa na sinapse, que é o intervalo entre eles. O sinal atravessa um vão, e é a travessia que produz o pensamento. Tire o vão e não sobra um cérebro mais eficiente: não sobra cérebro.
Uma conversa não está em nenhuma das duas pessoas. Uma marca não está no logotipo nem no cliente, está no que se forma entre os dois. Uma equipe não é a soma dos currículos. Um casamento não está em nenhum dos dois. Em todos esses casos a gente sabe listar as partes e não sabe onde guardar o resto, então trata o resto como se não existisse.
Escrevi sobre isso há três anos, e não percebi que era isso que eu estava escrevendo. Em Tecendo os fios invisíveis, de agosto de 2023, o argumento era sobre dialética e síntese: largar o pensamento binário, aceitar que a tensão entre ideias contrárias produz algo que nenhuma das duas continha. Citei Capra, Frost, Lynch, Teilhard de Chardin e uma monografia que eu havia escrito em 2000.
O que faltava naquele texto era nomear o lugar. Eu descrevia a travessia e não dizia de onde para onde.
O in-between não é o espaço vazio entre as coisas, é relacional, e é onde as coisas acontecem.
Isso muda o que se olha. Se o valor está nas partes, a gente otimiza partes: mede, ranqueia, corta o que “sobra”. Se o valor está na relação, a gente cultiva condições, e condições não se resolvem, se sustentam. Um jardim não se resolve. Uma marca é um jardim. Uma empresa é um jardim.
E dá para ver o preço de tratar o meio como sobra. Em What’s really running the show? eu escrevi sobre uma sede específica: as pessoas com fome de presença, de significado, de encontro, recebendo em troca mais estímulo, mais métrica, mais tela. O poço fica mais fundo e continua no endereço errado. Uma parte disso é geografia. Outra parte é que a gente vem desmontando sistematicamente os intervalos em que a relação teria onde acontecer.
A pausa numa conversa. O tédio antes de uma ideia. Os primeiros minutos de um filme em que nada acontece, que existiam para nos colocar num estado. O tempo entre a pergunta e a resposta, que hoje é preenchido por uma máquina em dois segundos.
Quase nada disso aparece numa métrica, e por isso quase nada disso é defendido em reunião.
Fico com uma pergunta que não sei responder e que eu levo há tempo demais para deixar quieta agora. Se a gente fosse reduzindo, tirando o supérfluo camada por camada, tirando até a linguagem, o que restaria? Sobraria alguma coisa que organiza? O que se sustenta quando não há mais nome para as coisas? Qual é a grande síntese?
Não tenho a resposta. Mas desconfio que ela não está em nenhuma das partes.
Esta conversa começou em voz alta no Better Future, podcast do Jornal do Comércio, numa entrevista de Patricia Knebel. O episódio completo está no YouTube.
Referências:
- Zorzo, L. A explosão do subjetivismo no design gráfico pós-moderno. Porto Alegre: PUC, 2000.
- Zorzo, L. Tecendo os fios invisíveis. Blog.Z, 30 ago. 2023.
- Zorzo, L. What’s really running the show? Blog.Z, 19 jul. 2026.